“Coragem, eu venci o mundo” (Jo 16, 33): uma caminhada com Jesus. O itinerário dos discípulos de Emaús. Esse é o tema desta postagem.
A
vitória de Cristo na cruz e o poder libertador da ressurreição no mundo
contemporâneo é o que contemplamos na caminhada que os discípulos peregrinos para Emaús fazem. O texto de Lc 24, 13-35 é um dos meus preferidos.
No primeiro dia da semana (isto é, domingo) dois discípulos iam para Emaús. Um lugarejo pequeno, no interior, na zona rural. Deixavam Jerusalém, lugar, palco de uma experiência traumática, decepcionante para se refugiar no pequeno lugar do escondimento, para fugir das atrozes lembranças. Entretanto, é bom lembrar, Jerusalém sediou fatos dolorosos, mas salvíficos. A salvação de Deus, dada na cruz, é a reconciliação que nos traz a paz. É isso que pode acontecer também na nossa vida: dar as costas para Jerusalém, símbolo dos grandes projetos de Deus para viver nossos pequenos projetos, bem adaptados ou acomodados à nossa visão estreita e limitada de felicidade. Com certeza, este trajeto teve a tristeza como companheira desagradável. Falavam entre si sobre o que tinha acontecido. A expectativa de um Messias triunfalista desabou na dolorosa experiência da cruz. Um deles se chamava Cléofas (v. 18). O outro não se sabe! Será que é Filoteu? Pode ser. Em todo caso, cada um de nós pode por o próprio nome junto do nome de Cléofas. Esse outro, sou eu!
Na conversa, na caminhada, aparece Jesus. Mas, os discípulos estavam como que cegos ao ponto de não reconhecerem o Mestre. Por que será? Em geral não se reconhece Jesus em um primeiro instante, mas após uma palavra e um sinal (veja Jo 20, 14; 21, 4.6-7). Mas, trazendo para uma dimensão mais espiritual, nossos medos, tristezas, decepções por não termos um salvador que não entra dentro de nossos esquemas estreitos pode gerar tantos desânimos e desorientação, pode gerar vontade de fugir, sumir, deixar e abandonar a luta, a busca. Cegos porque afundados na própria decepção. Faltava a lâmpada da fé! Daí tanta escuridão. Um perigoso pessimismo e uma tristeza paralisante foi o diagnóstico do estado sombrio em que se encontraram.
Jesus conversa com eles. No popular, o Senhor "joga verde para colher maduro". Faz-se de desentendido, provoca o desabafo para que eles "vomitem" a própria dor, ou melhor vomitem uma visão meramente humana dos fatos. O Cléofas até fica admirado como aquele estranho forasteiro peregrino está tão alheio ao que aconteceu. Parece fora do mundo. É bem verdade que naquele tempo não havia internet, telefone, nem rádio nem TV, mas ninguém falava de outro assunto naquelas redondezas.
Quando eles começam a falar, vem à tona a visão tremendamente distorcida que alimentavam; ou seja, eles queriam e alimentavam a ideia de um messias político, de um libertador das forças opressoras romanas, de um poderoso provedor dos pobres, no sentido de livrar as pessoas de suas penas e tornar-lhes fácil a vida.
“Nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram
para ser condenado à morte e o crucificaram” (v. 20). EIS UMA LEITURA VITIMISTA, FATALISTA DA
PAIXÃO DO SENHOR. PORÉM.... A LEITURA SOBRE A PAIXÃO DO SENHOR NÃO
É VISTA COMO INTERVENÇÃO SALVÍFICA, MAS COMO UMA CATÁSTROFE, UM DESASTRE
TERRÍVEL! ELES JOGAM NAS AUTORIDADES TODA A
RESPONSABILIDADE DA TAL CATÁSTROFE. A MORTE DE CRISTO NÃO É FRUTO DE CONCHAVOS POLÍTICOS. NÃO SE
REDUZ A UMA FATALIDADE HISTÓRICA.
Bem diz o texto a respeito:
"Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram!" (v. 21).
Meu Deus! Quanto é forte essa expectativa a respeito de Jesus! A pessoa do "servo sofredor" parece tão distante, tão horripilante que correr atrás dos milagres de Jesus fez com que se negligenciasse e até fugisse do encontro com o Jesus que faz milagres, mas é pobre, manso, servo, veio para dar a vida, aceitou o sofrimento e morreu na cruz. Quantos ainda não descobriram que o poder de Deus não se manifesta predominantemente nas curas físicas e psicológicas, nas ressurreições ou multiplicação de pães e de vinho, mas na cruz, na pequenez, na misericórdia, no serviço, no amor gratuito até aos inimigos. Isso faz pensar! A decepção não permitiu nem mesmo que os sinais da ressurreição fossem lidos com clareza e lucidez de fé. O testemunho das mulheres que foram ao túmulo (vv. 22-23) pareceu tagarelice e alarmismos femininos e, nem mesmo a ida de alguns dos apóstolos ao túmulo convenceu (v. 24).
Ante tanta escuridão, a luz brilhou. Uma repreensão e um ensino foi jogando fora o medo e o desânimo. O sol passou a aquecer aqueles coração petrificados pelo gelo do marasmo, da apatia, da dor. Realmente eram homens "sem inteligência e lentos para crer", ou seja, faltava-lhes a inteligência da fé, a visão sobrenatural. Eram lentos para crer, isto é, tinham o coração endurecido, insensível. A pessoa inteligente não é aquela que meramente tem muitas informações armazenadas, mas quem é capaz de fazer conexões amplas dos acontecimentos, ou seja, alguém que consegue ler os fatos com "olhos de páscoa".
Jesus faz uso das Escrituras e começando por Moisés, passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele (ver vers. 27). O Mestre explica a partir dos fundamentos da antiga aliança (Lei e os profetas) tudo quanto a ele se referia. E mais, ele deixa claro, aliás, claríssimo, que tudo quanto lhe ocorreu, tudo quanto ele sofreu não foi uma fatalidade histórica, não foi apenas fruto de um conchavo político, ele não morreu apenas porque incomodava uma classe dominante e opressora. Foi isso também, mas a motivação é bem mais profunda! Quem não aprofundar os porquês desta morte fará uma leitura superficial, medíocre e até sem fé, da paixão e morte de Jesus. De fato, diz Jesus:
"Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?" (v. 26).
A caminhada prossegue e pelo visto o dia vai chegando ao seu final. O ocaso dá sinais que a luz dará lugar às trevas da noite. E os discípulos, animados por aquela presença misteriosa e tão indispensável, já começar a ver uma aurora interior que desponta e mostra a que veio. Jesus fez de conta que ia adiante, mas eles insistiram:
"Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!" (Lc 24, 29).
Uma oração a ser feita todos os dias. De fato, nas noites da nossa vida, como essa presença luminosa faz diferença e ajuda a ver as coisas. A verdade é fonte de liberdade e de felicidade. Só será livre que estiver ancorado na verdade e só será feliz quem for livre. Pois bem, e Jesus ficou com eles. É preciso pedir muito a Jesus que permaneça conosco, exatamente para que nós possamos permanecer com Ele e n'Ele. Sem essa companhia do senhor mergulharemos em uma solidão de morte e a vida se esvazio, fica sem sentido.
No momento da ceia um gesto bem típico de Jesus faz cair os véus e eles passam a enxergar. De fato, o partir o pão, precedido da ação de graças e a partilha deste pão deu as credenciais da Eucaristia. Revelou-se o Senhor. E logo agora que tudo vai bem, Ele desaparece da vista deles! Logo no "melhor da festa"! Como é que se explica este fato? Por uma razão mais profunda: Os peregrinos não chamados a encontrar Jesus através da visão, mas através da fé. Uma fé vivida na comunidade e nunca fora dela. Com efeito, esse encontro com Cristo Ressuscitado que lhes ilumina o interior arranca a escuridão e os medos que a escuridão provocam. Esta é a razão pela qual eles vão correndo para Jerusalém: para testemunhar na comunidade a vitória daquele que vive e que passou pela cruz. A noite exterior não é mais problema, não é mais barreira ou empecilho para caminhar, pois a clareza da luz permite não somente caminhar, mas correr para ir ao encontro a fim de testemunhar. Antes eles tinha o rosto triste, o rosto que é a epifania do ser, mas agora, a contemplar o Senhor banhado de luz, eis que eles se iluminam: Bem diz o Salmista orante:
"Faze tua face brilhar e seremos salvos!" [Sl 80(79), 4].
Um abraço e a bênção do padre.